Stablecoins perdem paridade; tether é problema para bitcoin

Stablecoins perdem paridade; tether é problema para bitcoin


Críticos sempre apontaram riscos no mercado de criptomoedas — agora, eles começaram a ser testados.

Num movimento que lembra a aposta de George Soros contra o peg da libra esterlina e que pode abalar ainda mais a confiança dos investidores, várias das chamadas stablecoins – criptomoedas que em tese guardam equivalência com o valor de moedas – estão perdendo a paridade de 1:1.

No início da semana, uma stablecoin chamada TerraUSD, que chegou a ter US$ 14 bilhões de market cap, perdeu o seu peg e despencou; na madrugada de hoje, cada TerraUSD era cotado a US$ 0,5874.

Na esteira deste movimento, a criptomoeda Luna, desenvolvida pelo mesmo time por trás do TerraUSD, despencou espetaculares 98%, amassando seu market cap de US$ 30 bi na semana passada para menos de US$ 1 bi e deprimindo preços em todo o mercado de criptos.

Agora, está sendo a vez do tether sofrer um ataque.

O tether é a moeda de troca mais importante do ecossistema de cripto, um colosso da indústria com market cap de US$ 78 bi.

Na madrugada de hoje, cada tether foi cotado a US$ 0,9627 no site coinmarketcap.com (um dos maiores sistemas de acompanhamento do mercado), antes de se recuperar para US$ 0,99 esta manhã — e os investidores estão prendendo a respiração com a expectativa deste peg também ser quebrado.

As stablecoins são moedas digitais emitidas por companhias que alegam ter reservas financeiras suficientes para manter a paridade daquela moeda com o valor do dólar. Elas são a moeda corrente nas principais exchanges de criptomoedas e, considerando o ecossistema de cripto como um todo, há quem estime que a porcentagem de transações realizadas em stablecoins ultrapasse 90% do volume mundial.

O tether é, de longe, a principal stablecoin usada na compra e venda de criptomoedas como o bitcoin. Na realidade, as compras e vendas de BTC acontecem principalmente no par BTC/tether, e não BTC/USD. (O ticker do tether é enganosamente USDT para esconder isso do investidor de varejo.) A maior parte das exchanges usa o tether porque assim não precisa operar com banco algum e consegue escapar das regras típicas de compliance e ‘know your client’.

É a primeira vez que o tether é cotado consistentemente com desconto apreciável sobre o valor nominal de US$ 1. Em outras palavras: a quebra dessa equivalência entre o dólar e o tether quer dizer que ninguém vai conseguir dizer qual é o real valor de um bitcoin.

Por volta das 4 horas da manhã de hoje, o bitcoin estava negociando ao redor de US$ 27.000 – uma queda de 22% nos últimos cinco dias.

Alguns investidores e economistas sempres estiveram preocupados que o emissor do tether não tivesse reservas em dólar suficientes para lastrear a paridade.

Há um ano, a empresa por trás do Tether abriu as reservas que garantem sua stablecoin. Só 3% estava em dinheiro — a maioria estava em commercial paper, o equivalente no Brasil a notas promissórias de grandes empresas (de curto prazo e sem garantias). Segundo o JP Morgan, a posição do tether faria dele um dos 10 maiores detentores de commercial paper do mundo, comparável aos grandes fundos que atuam neste mercado — com a diferença de que o tether não é regulado…

Há quase um ano, o presidente do Fed de Boston, Eric Rosengren, alertou que o tether e outras stablecoins são um risco à estabilidade financeira.

“Essas stablecoins estão se tornando mais populares,” disse Rosengren. “Uma crise futura pode ser facilmente desencadeada à medida que estes se tornarem mais relevantes no mercado financeiro, a menos que comecemos a regulá-los e garantir que haja uma estabilidade muito mais estável para o que está sendo comercializado para o público em geral como uma stablecoin.”

Até uma das agências de rating, a Fitch, resolveu soar o alarme. “As stablecoins que usam reservas fracionárias ou adotam alocação de ativos de alto risco” oferecem risco.

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Uma estimativa recente diz que 70% de todas as compras de bitcoin são feitas em tether; compras diretas com dinheiro vivo (dólares, yen, won coreano ou euro) totalizam apenas 15% do volume total.

A despeito de seu caráter altamente suspeito, o tether foi uma parte integral do fabuloso bull market nas criptomoedas.

A própria empresa por trás do tether, a despeito do seu claim de que cada 1 tether é lastreado por 1 USD em conta, foi obrigada a admitir em uma corte americana que isto não é verdade em um famoso caso movido pelo attorney general de NYC.



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