OPINIÃO: Como as fintechs podem ajudar os mais pobres

OPINIÃO: Como as fintechs podem ajudar os mais pobres


Antes, durante e mesmo depois da pandemia, a realidade brasileira é que uma parcela significativa da nossa sociedade vive sob constante vulnerabilidade econômica. Como combater ou pelo menos mitigar essa situação?

O Banco Mundial publicou recentemente o estudo “Aumentando a resiliência dos trabalhadores de baixa renda no Brasil”, que avalia a vulnerabilidade econômica da população beneficiada pelo Bolsa Família e inscrita no Cadastro Único. O trabalho apresenta sugestões de como abordar e minimizar o problema. As fintechs – operadoras financeiras baseadas no uso intensivo de tecnologia — podem ajudar a implantar essas sugestões.

A população vulnerável inscrita no Cadastro Único alcança 24 milhões de lares. Cerca de 14 milhões recebem o Bolsa Família e os demais não têm nenhum colchão de proteção social.

Mesmo a população que recebe o Bolsa Família permanece apresentando vulnerabilidade de renda devido ao baixo benefício médio, que é de cerca de R$ 217. Uma das várias consequências apresentadas no texto: 40% das pessoas que viviam em favelas em 2020 tiveram que pular refeições.

O Banco Mundial fez três recomendações com base em estudos de casos de países como Colômbia, Quênia e México, que também se defrontam com a mesma questão e buscaram criar instrumentos de gestão de risco desenhados especificamente para essa população.

A primeira recomendação é o desenho de instrumentos que estimulem o hábito da poupança voluntária entre as famílias de baixa renda. O pouco guardado faz diferença: R$ 20 poupados mensalmente representam, em um ano, mais que o valor médio pago pelo Bolsa Família em um mês.

A sugestão é que se construa um mecanismo com base em subsídios monetários – juros acima do mercado e contrapartidas — e restrição a saques fora de finalidades específicas, como educação, saúde ou velhice.

O objetivo é estimular a constituição de um colchão de renda para fazer frente a intempéries. O desenho desse instrumento pode ser bastante desafiador dado que, segundo a Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) de 2017, apenas 3% dos beneficiários do Bolsa Família tiveram poupança líquida positiva.

O segundo pilar, de intervenções financeiras complementares, busca educar a população para utilizar linhas de financiamento mais baratas. Apenas 30% dos integrantes do Cadastro Único possuem algum produto formal de crédito. Desses, o produto financeiro mais utilizado é o cartão de crédito, com cerca de 43% de participação no volume total. No rotativo do cartão, ao não pagar a fatura completa, as taxas anuais podem chegar a 300%, o que faz com que essa população possua um alto percentual de negativação – cerca de 47,5%, bem acima da taxa de 30% verificada no restante da população.

Já as linhas de microcrédito possuem taxas máximas de 4% ao mês (60% ao ano), hoje concentradas no Banco do Nordeste, que detém 93,5% desse mercado no País.

Assim, educar a demanda para priorizar produtos financeiros mais baratos e difundir a tecnologia de microcrédito para demais ofertantes e regiões seria uma forma eficiente de suavizar o efeito dos choques de renda.

A última sugestão apresentada no trabalho refere-se à coordenação dos produtos financeiros com o Bolsa Família. Nesse tópico, há duas principais propostas: a primeira refere-se à separação imediata do benefício recebido em uma poupança, buscando induzir já na largada a construção de uma reserva emergencial.

A segunda opção é a disponibilização das informações enriquecidas do Cadastro Único para a construção de novos produtos por instituições financeiras em um marketplace concorrencial, em que as instituições ofertem sua melhor linha.

Aqui, um grande desafio vem do fato de que as informações do Cadastro Único são muito mais demográficas do que sobre hábitos financeiros – o que teria uma utilidade limitada para a construção dos produtos de crédito.

Em suma, apesar de baseadas nas melhores práticas, as dificuldades técnicas para se implantar as sugestões são significativas: é bem difícil construir produtos financeiros rentáveis para uma população tão vulnerável via bancos tradicionais e com pouca informação.

Mas um ecossistema formado por fintechs poderia, sim, ser capaz de implementar as propostas do Banco Mundial. Considere-se a mesma mudança de paradigma que norteia a disputa entre os grandes bancos e as fintechs. Os primeiros estão focados em ter resultados via oferta de produtos massificados – cartão, crédito, cheque especial.. Já as fintechs usam os produtos financeiros para ter engajamento do cliente, e a partir daí buscar a viabilidade econômica.

Para suportar essa estratégia utiliza-se tecnologia para ter um custo operacional baixo e muita, mas muita informação para, com inteligência artificial, medir com precisão qual produto serve para quem e a qual preço.

Haveria, claro, alguns requisitos para induzir o atendimento desse mercado pelas fintechs. O primeiro seria a seleção das empresas com experiência e vocação para o projeto – e concomitante divulgação para a população de que essas empresas fariam parte do ecossistema.

Uma vez selecionadas com critérios técnicos, essas empresas precisariam de um funding específico para atender essa população, um papel que poderia ser suprido pelo BNDES – que já tem programas para apoiar microempreendedores – ou outros organismos multilaterais.

O segundo passo seria a disponibilização, via uma API, de todas as fontes de dados relevantes às fintechs cadastradas: Cadastro Único, histórico bancário, uso do aplicativo do Bolsa Família, entre outros. Dessa forma, seria possível construir diversas estratégias customizadas para necessidades específicas.

Em uma linguagem apropriada para essa população, vários produtos poderiam ser construídos: microsseguros (por exemplo, o funerário), conta familiar, empréstimos com o aval de terceiros (o empregador ou familiar), aplicativos divertidos que estimulem a poupança, a educação financeira e o planejamento de longo prazo (estratégia de gamificação), entre outros.

Seriam produtos viabilizados pela inteligência artificial e pela tecnologia, e certamente modificariam a vida das pessoas. Essas informações permitiriam minimizar – e até melhorar – o excelente programa de microcrédito do Banco do Nordeste.

A liberdade de construir produtos teria consequências inesperadas, como um programa de treinamento remoto de crianças das famílias carentes em programação, com impactos positivos permanentes.

Por último, mas não menos importante, o Estado deveria medir, avaliar e rever os incentivos dados às empresas e à qualidade de execução. Qual o volume de crédito recebido e qual taxa? Foram de fato para os mais vulneráveis? Reduziu-se a métrica de vulnerabilidade da população? A educação financeira melhorou? Qual o impacto na educação e na saúde das famílias? Um processo dinâmico de melhoria contínua.

Genaro Lins é o chief credit officer da Open Co e doutor em Economia pela FGV-EPGE.



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