O Jô de uma geração

O Jô de uma geração


Nunca fui entrevistado por Jô Soares, mas isso não importa. Ensaiei na minha cabeça tantas vezes que até parece verdade. Os aplausos, a risada, o grand finale – “Hoje eu falei aqui com…” – e a plateia interrompendo com voz de dó: “AHHHHHH!!!”.  Honraria máxima. O que é um Oscar perto da plateia do Jô chateada com o fim da entrevista?

Bem, talvez essa fantasia narcisista seja coisa minha, mas algo me leva a crer que todo brasileiro já se imaginou naquele sofá, sentindo-se levemente incomodado por aquela chave de braço afetuosa dada nos entrevistados de que ele gostava.

Eu, que nasci em 1984, tenho mais forte na memória o Jô apresentador de talk show. Do alto dos meus 11 anos, me achava um verdadeiro adulto por dormir depois da meia-noite assistindo ao programa. Compartilhava o entusiasmo com meu pai. (Já ele não parecia tão empolgado por me ver acordado tão tarde.)

O “Jô Soares Onze e Meia” era uma lufada de ar fresco pela diversidade que trazia. Num mundo pré-internet, aquele espaço era uma janelinha para universos diferentes. Música, cultura, comédia, tinha de tudo. Aliás, foi uma ousadia do Jô trazer o formato talk show para o Brasil. Enquanto Johnny Carson recebia todas as noites a nata de Hollywood, o “Jô Onze e Meia” – no SBT – tinha que se virar sem poder contar com o Olimpo da Rede Globo. Ainda bem. As melhores entrevistas eram justamente com os anônimos. Jô transformava transeuntes triviais em conversas memoráveis.  

Lembra do bancário com cara de psicopata gritando “Motosserra”? Era Rogério Skylab! E os cinco moleques vestidos de Chapolin? Aquela estreia catapultou de vez os Mamonas Assassinas. 

O Brasil passou no sofá do Jô.

O gordo conversou com muita gente e foi, ele mesmo, muitas pessoas. Ao lado do Chico Anysio, o maior representante do humor de personagens, tão tipicamente brasileiro. Se Chico se metamorfoseava completamente a cada personagem, com maquiagens e vozes absolutamente distintas, os personagens do Jô sempre pareciam ele mesmo, mas isso não era demérito. Ao contrário. Na minha opinião, eram mais elegantes e sofisticados. 

Faça o teste. Pegue uma esquete do “Viva o Gordo” e pause em qualquer frame. É só jogar um balãozinho de texto ali que você tem uma charge do Pasquim. A piada toda consegue ser contada em uma imagem.

Essa comédia de personagens, da qual Chico e Jô são o pináculo, segue sendo a favorita do brasileiro. É só olha pra eternamente popular A Praça é Nossa e pras bilheterias absurdas de Paulo Gustavo. 

Alguns leitores talvez torçam o nariz, pensando que essa é uma categoria mais popularesca de humor, talvez até ultrapassada, mas aí serei obrigado a lembrá-los do super cult Choque de Cultura. A influência de Jô está ali. E o stand-up? Boa parte dos que estão no auge agora tiveram sua primeira chance na TV ouvindo risadas do Bira. Fábio Porchat que o diga. E se o The Noite reina como Late Show soberano no Brasil, não pense que é porque Danilo via Letterman em Santo André, mas porque um dia sentiu um clique diferente ao ver aquele reloginho vermelho e amarelo na abertura do SBT. 

Esse, irmãos, é o poder transformador da comédia.

Jô fez de tudo. Era o homem vitruviano de da Vinci, só que rechonchudo. Escrevia, atuava, cantava, dirigia, tocava seu bongô…  sempre com um jeito de criança marota que fala “mãe, olha que eu sei fazer!”

Como uma pessoa tão descaradamente vaidosa conseguia ser tão adorável? Talvez pela paixão evidente que ele tinha pelo ofício e por sua arte. Mas acho que o segredo mesmo era a generosidade – tanto de compartilhar sua alegria e seu talento, quanto de abrir portas para tantos.

Jô tinha mais de 80 anos, mas estava longe de ser velho. Fazia questão de conhecer as novas gerações para contar histórias, dar conselhos e, claro, ouvir. 

Seu legado para a comédia e as artes brasileiras é mais que de artista  – é de gênio – mas a grande lacuna que ele deixa na verdade se abriu lá atrás, quando Jô saiu do ar – e é a que mais faz falta ao País hoje.

Jô foi o patrocinador de uma grande conversa nacional.  No seu programa, o Brasil se conhecia e se reconhecia. Nossos problemas e nossas alegrias eram debatidos e destrinchados, e se tornavam a conversa do dia seguinte.  

Hoje somos um País que não se entende e que pouco se fala. Esquecemos a essência do gordo.

Thiagones escreve comédia pra TV há mais de 10 anos, com passagens pelo CQC, Comedy Central e Globo. 

A tirinha que ilustra este texto é de Carlos Ruas. Instagram: @umsabadoqualquer e @carlosruas.usq

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