João Paulo Diniz, obra incompleta

João Paulo Diniz, obra incompleta


Para todo filho de bilionário, um sobrenome pode ser um ônus e uma sombra por toda a vida, mas João Paulo Diniz — o segundo dos seis filhos de Abilio — tinha luz própria.

Sem nunca ter tido a pretensão de se tornar uma figura nacional como o pai, João Paulo investiu em restaurantes, academias e em mobilidade – um portfólio que refletia seus interesses na vida.

“O João gostava de negócios que tivessem excelência – não necessariamente que fossem grandes,” disse um amigo.  “Ele queria os melhores sócios, sempre teve um olhar muito crítico para a qualidade. Ele sempre foi mais um investidor do que um operador.”

O berço era de ouro, mas o coração também.

“Ele tinha 1 milhão de amigos, era muito fácil de fazer amizade,” disse um amigo desde que os dois tinham 18 anos. “Era um cara muito fácil de gostar e tinha interesses muito simples, amava esporte e era muito ligado à família. Os amigos deles são os mesmos há 40 anos.”

A morte de terceiros sempre nos faz refletir sobre nossa própria finitude, mas a morte extemporânea, aos 58 anos, choca ainda mais.

Dado seu perfil de esportista e triatleta, sua passagem prematura iniciou imediatamente uma conversa sobre os riscos dos extremos no esporte; ainda que a causa morte ainda não esteja clara, João não seria a primeira pessoa com um histórico de saúde acima da média – com a prática de esportes ao limite – a morrer subitamente de uma parada cardíaca.

João deveria ter ficado mais, mas aproveitou o tempo que teve. Teve quatro filhos, de dois casamentos.

Começou a trabalhar no GPA como trainee aos 21 anos, enquanto cursava administração na GV.

Com pouco mais de 30, já era diretor. Responsável pela área de inovação e novos projetos, sua sala de reuniões – anexa ao escritório que ocupava no mesmo andar que o pai e a irmã Ana Maria – era marcada por uma entra-e-sai de gestores das áreas de operação, marketing e tecnologia.

O desafio era colocar de pé a primeira operação de supermercado pela internet no país. Em 1995, nascia o Pão de Açúcar Delivery, uma ideia de João que, seguindo uma prática do pai, trouxe a ideia de uma viagem ao exterior. A operação foi um sucesso. Inicialmente funcionava com CD-ROM, os consumidores conseguiam visualizar as gôndolas das lojas no seu computador e também podiam pedir por telefone ou fax (!!!).

“O João foi um dos pilares para a guinada de inovação que o GPA deu na década de 90,” disse uma executiva que trabalhou com ele no grupo.

Quando Abilio se associou ao Casino e profissionalizou a gestão, João deixou o grupo e foi cuidar de seus negócios.

Ele também conviveu com a tragédia. Em 2001, o helicóptero no qual viajava caiu no litoral de São Paulo, matando o piloto e a então namorada, Fernanda Vogel. João e o copiloto do helicóptero sobreviveram nadando até a praia.

Há pouco mais de um mês, no aniversário de seu pai, comemorado na Itália, os filhos subiram ao palco e cada um fez uma pergunta a Abilio. João perguntou o que o pai achava de seu amor pelo esporte.

Segundo pessoas presentes, Abílio respondeu que aprovava, mas que tudo na vida tem uma medida certa.  Era um conselho sobre os riscos do exagero.

A morte de João vai exigir de Abilio mais uma superação – talvez a maior de todas. João sempre foi um alicerce do pai em todos os momentos críticos de sua vida. É nessa memória que Abilio agora buscará força.



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