Gestores de ações lambem as feridas do pior ano da história

Gestores de ações lambem as feridas do pior ano da história


Uma gestora é melhor definida pela qualidade do seu passivo que dos seus ativos.

A frase – um pouco exagerada e de autoria desconhecida – está na cabeça de muita gente no Leblon e na Faria Lima num momento em que os gestores de ações enfrentam o período mais crítico de sua história recente.

A saída de recursos desses fundos no primeiro semestre alcançou R$ 49,5 bilhões, segundo a Anbima.  Se o segundo semestre fosse neutro em captações e resgates, este seria o pior ano da história da indústria.

Para se ter uma ideia da magnitude deste número, vale a pena revisitar a história recente.

Em 2014 – o último ano do primeiro mandato de Dilma – os resgates nos fundos de ações atingiram R$ 13,9 bilhões. A coisa piorou no ano seguinte, com saques líquidos de R$ 18,3 bi, e amainou em 2016 – o ano do impeachment – com retiradas de R$ 9,5 bi. 

O ano seguinte – o primeiro do Governo Temer – marcou uma (bela) inflexão e o início de anos fantásticos para a Bolsa. A captação líquida nos fundos de ações acompanhou a alta do mercado: R$ 36,8 bi em 2017; R$ 29 bi em 2018; R$ 88,5 bi em 2019; R$ 73 bi em 2020. Em 2021, a captação ainda foi positiva em R$ 5,9 bi.

“O problema é que o varejo continua investindo errado: veio para a Bolsa na alta, e agora está saindo na baixa,” diz um gestor.

O patrimônio líquido dos fundos de ações fechou junho em R$ 468 bilhões em junho, uma queda de 33% em relação ao pico de R$ 703 bi de junho de 2021. 

Gestores mais experientes estão enxergando este momento como mais um ciclo de baixa do mercado, mas há muita gente compreensivelmente tensa. 

“Sério mesmo que você quer que eu comente sobre isso?” reagiu um gestor procurado pelo Brazil Journal.

A Bolsa começou a enfraquecer no segundo semestre do ano passado, com preocupações com inflação em todo o mundo, o que levou à alta dos juros. A Selic saiu de 2% em janeiro de 2021 para 9,25% em dezembro, e hoje está em 13,25%.  

“Com essa Selic, fica difícil competir,” disse um gestor.  

A crise atual é a primeira enfrentada pelo cliente de varejo que veio com as plataformas – um fluxo de recursos estimulado pelo juro real negativo que engordou o portfólio de muitas gestoras e deu oportunidade para o surgimento de outras.  

Mas o cliente das plataformas não é o único responsável pelos resgates. Um levantamento feito pela ComDinheiro somente com fundos que têm mais de mil cotistas mostra que o resgate é proporcional em todos os perfis do varejo: private, o cliente tradicional e o das plataformas. 

Ano passado, o pior mês foi novembro, com R$ 2,9 bilhões. Neste ano, a coisa foi muito mais feia, com picos de resgate em fevereiro (-R$ 5,5bi) e março (R$ 5,9 bi), mas os saques vêm caindo desde então. Em junho, ficaram em R$ 2,7 bilhões. 

O movimento também atraiu outros perfis de investidores. “Muitos fundos de pensão também foram seduzidos pelos retornos das NTN-Bs,” disse um outro gestor.

Só houve captação positiva no primeiro semestre nos fundos de renda fixa (R$ 88,8 bilhões) e FIDCs (R$ 31,6 bi) – a captação líquida da indústria de fundos ficou apenas em R$ 8 bi. 

Para Fabiano Custódio, sócio da Miles, a situação atual é  reflexo de um mercado ainda pequeno, com poucas opções principalmente para a estratégia long only

“Não temos cases suficientes. Muitas gestoras estão nos mesmos papéis e aí uma toma um resgate, vende e esse movimento acaba afetando a performance de outras,” disse. “Isso deixa o mercado pouco guiado por fundamentos e de mais difícil navegação.” 

Um outro gestor que prefere não se identificar resolveu transformar os resgates quase numa ferramenta de gestão. 

Ele monitora e cruza dados de resgates e da composição das carteiras dos fundos da indústria e tenta identificar potenciais pressões vendedoras em papéis. 

“Esse negócio é uma guerra,” disse. “Tem ação que está barata, a gente pensa em entrar, mas aí faz essa análise e vê que até o papel subir ainda pode levar muito tempo.”

Luis Felipe do Amaral, sócio da Equitas, disse que as vendas na bolsa deixaram o mercado com oportunidades que “a casa não via há uns 10 anos: “Isso é o que vemos na análise das empresas, mas o problema é o macro, que não temos controle e que segue difícil de prever”.  

Por essa razão, é difícil dizer se a Bolsa caiu tanto que já está chegando a hora de voltar a subir ou pelo menos parar de cair, disse o gestor.

O sinal potencialmente mais positivo para o mercado hoje será o arrefecimento da inflação aqui e nos EUA, que poderá ter impacto favorável na curva de juros futuros. Ainda assim, o Brasil deve sofrer mais volatilidade nos próximos meses por conta da eleição. 

Algumas gestoras mais antigas já estão encontrando a saída para reverter o fluxo negativo no curto prazo.  

A Truxt compensou os resgates atraindo investidores offshore, disse o CEO José Tovar. “Já vínhamos conversando com alguns deles há um bom tempo e agora surgiu esse espaço,” disse.

Segundo ele, apesar das retiradas, a Truxt tinha posições líquidas e o resgate em D+30 permitiu vender com tranquilidade, sem que esse fluxo afetasse a cota de forma importante.  O Truxt Valor Institucional tem queda de 4,17% este ano até 7 de julho; e o Trust Valor cai 8,69%, enquanto o Ibovespa perde 3,90%. 

Na Squadra, a captação líquida este ano está positiva em R$ 1 bilhão graças ao investidor internacional, que entrou com 95% desses recursos, disse Guilherme Aché.

Em entrevista ao Brazil Journal no início do ano, Aché havia dito que estava difícil atrair o investidor internacional. Segundo ele, o cenário mudou porque a Bolsa ficou ainda mais barata, ainda mais olhando o longo prazo. 

Os dois gestores já venceram as estatísticas: um estudo de mercado diz que 60% das gestoras não completam 10 anos;  e 40% delas deixam de existir antes de completar cinco. 

Para alguns gestores, o vendaval atual vai levar embora algumas casas, como aconteceu na crise de 2015-16.  

O negócio de gestão funciona no chamado “2 com 20”: 2% de taxa de administração, e 20% de taxa de performance. 

Se não superar o Ibovespa, como está acontecendo em grande parte dos casos, o que sobra para a gestora são os 2% menos o rebate para o distribuidor, que fica entre 0,4% e 0,5%. 

Considerando 1,5% a cada R$ 1 bi, a gestora tem R$ 15 milhões em receita. 

Se o total sob gestão cair muito, a gestora começa a perder gente por não conseguir oferecer o tipo de remuneração esperado no mercado. “O cliente percebe isso, e isso pode alimentar mais resgates,” disse um gestor. 

Uma saída pode ser uma fusão com outra casa. 

“Se a gestora puder evoluir com a fusão, pode ser uma saída sim. Agora, se for para juntar duas casas que não vão bem, não faz sentido,” disse um outro.   

Duas gestoras tradicionais – Dynamo e Atmos – reabriram seus fundos depois de muito tempo fechadas para captação e encontraram demanda reprimida apesar de uma performance fraca este ano: o Dynamo Cougar cai 20,6% no ano e o Atmos Ações perde 20,9%, contra uma queda de 6% no Ibovespa. 






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