Fed intensifica inflação no Brasil, diz economista-chefe do Citi

Fed intensifica inflação no Brasil, diz economista-chefe do Citi


A alta de juros nos Estados Unidos fortaleceu o dólar em todo o mundo. Um dos efeitos colaterais dessa política foi o enfraquecimento das moedas emergentes, como o real, o que tornará o combate à inflação nesses países ainda mais difícil.

Quem faz a análise é o economista-chefe para mercados emergentes do Citibank, David Lubin, em entrevista ao Brazil Journal.

“A ação do Fed tentando resolver o problema da inflação americana pode intensificar a inflação dos países em desenvolvimento, por causa do efeito cambial”, diz Lubin. 

Baseado em Londres, Lubin é autor do livro “Dance of the Trillions: Developing Countries and Global Finance” e fellow da Chatham House.

A seguir, os principais trechos da conversa, durante sua recente visita ao País.

Por que a inflação nos Estados Unidos é mais persistente do que se imaginava?

Muito se falou que a inflação de 2021 era resultado de problemas na cadeia de suprimentos e da alta nos preços das commodities. Na verdade, a fonte fundamental das pressões inflacionárias foi a escala de estímulos nos EUA. As restrições de oferta só existem se houver demanda.

Em 2020 os Estados Unidos entregaram algo como US$ 2 trilhões de estímulo fiscal. Em 2021, houve mais estímulos, de US$ 1,7 trilhão. Então ocorreu uma onda de pressão de demanda, em um período no qual havia restrições de oferta por causa dos efeitos da pandemia.

O desafio agora está no fato de que essas ondas de pressão inflacionária elevaram as expectativas de inflação. O Fed terá muito trabalho pela frente.

Quando se trata de economias emergentes, acho que há um problema adicional, resultante da força do dólar.

Por quê?

Com a inflação acelerando em todo o mundo, é mais provável que a desvalorização cambial gere pressões inflacionárias.

Se houver um incêndio e você adicionar material combustível, você vai ter mais fogo. Quando adicionamos uma depreciação cambial à alta de preços nos países emergentes, a inflação aumenta ainda mais. 

O fortalecimento do dólar, portanto, acaba acentuando o problema. A ação do Fed tentando resolver o problema da inflação americana pode, dessa maneira, intensificar a inflação dos países em desenvolvimento. Isso tem acontecido no Brasil, mesmo depois do aumento de juros pelo BC brasileiro.

Historicamente, o real se fortalece ante o dólar quando ocorrem ciclos de valorização das commodities. Por que isso não ocorreu agora?

Temos no momento uma combinação muito incomum de preços altos de commodities e um dólar forte. Isso não é verdade apenas para o Brasil, mas para outros exportadores de matérias-primas também.

Isso não ocorre, na minha opinião, porque o mercado está dividido entre dois fatores. Por um lado, há o efeito positivo das exportações. Mas, de outro, a aversão ao risco exerce uma força negativa.

O que explica a alta no risco Brasil?

Existem fatores globais e alguns específicos do Brasil.

Imagine dividir os países em 4 quadrantes. Acima, os países dignos de crédito e, abaixo, os países que não são dignos de crédito. De um lado, os exportadores de commodities e, de outro, os importadores de commodities. O quadrante mais vulnerável são os importadores de commodities que têm baixos níveis de qualidade de crédito, países como Sri Lanka, Paquistão e Líbano.

Os países que são mais seguros são os exportadores de commodities com níveis mais elevados de credibilidade. O Brasil poderia ser colocado nesse quadrante. É um credor externo líquido e, mesmo que o ônus total da dívida pública seja elevado, não é tão alto quanto pensávamos que seria há dois anos. As receitas fiscais estão indo bem. A conta corrente está em superávit. Tem muitas coisas a favor do Brasil.

Mas, mesmo estando nesse quadrante de grande exportador de commodities e credibilidade relativamente elevada, o País sofre com a aversão ao risco, que mencionei anteriormente. 

Além do mais, é comum haver mais volatilidade quando o período eleitoral se aproxima. Há incertezas sobre o ambiente político.

Como vê as perspectivas para os países emergentes?

Devo dizer que estou pessimista. Um fator crítico para o desempenho das economias emergentes é o crescimento do comércio mundial – e, recentemente, o comércio tem crescido menos nos últimos anos.

Durante décadas seguidas após a Segunda Guerra Mundial, praticamente em todos os anos o crescimento do comércio foi maior do que o crescimento do PIB global. Era um mundo em globalização.

Mas entre 2010 e 2019, o crescimento do comércio ficou abaixo do crescimento do PIB global. Já temos alguns anos de um mundo em “desglobalização”, se podemos defini-lo dessa forma.

Quando olhamos para o ambiente político na China, na Europa e nos EUA, a segurança econômica tornou-se uma prioridade para os formuladores de políticas. A segurança econômica está se sobrepondo à eficiência econômica. Quando a segurança é mais importante do que a eficiência, o crescimento do comércio diminui – e o crescimento do PIB também diminui.

Então teremos também que nos habituar a um nível mais elevado de inflação?

É um argumento razoável pensar que em um mundo onde o crescimento do comércio permanece permanentemente baixo, um mundo onde os formuladores de políticas estão enfatizando a segurança sobre a eficiência, é um mundo no qual teremos crescimento um pouco menor com uma inflação um pouco mais alta.






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