Em Mães Paralelas, Almodóvar desenterra o trauma do franquismo

Em Mães Paralelas, Almodóvar desenterra o trauma do franquismo


A sequência inicial mais bela do cinema de Pedro Almodóvar talvez seja a de Carne Trêmula, seu filme de 1997: a prostituta Isabel, vivida por Penélope Cruz, dá à luz Victor – que adiante será um dos protagonistas da trama – em um ônibus que percorre as ruas desertas de Madrid à noite, durante o estado de emergência decretado pelo regime do generalíssimo Francisco Franco, em 1970.

A amiga que a ajudou no parto ergue o bebê até a janela do coletivo, de onde se vêem os arcos da Puerta de Alcalá, construída no século XVIII para ser a entrada da capital espanhola. “Veja, Victor: Madrid”, diz ela. E o espectador vê a cidade que Almodóvar ama filmar com os olhos de quem está descobrindo o mundo.

Já no novo filme do diretor espanhol, Mães Paralelas (Madres Paralelas), disponível na Netflix, Penélope Cruz, no papel da fotógrafa Janis, de novo aparece no momento do parto – ainda em Madrid, claro, mas em condições mais controladas, em um hospital. Fruto de um caso com um homem casado, a gravidez não foi planejada, mas Janis decidiu que era sua hora de ser mãe.
Se em Carne Trêmula Penélope Cruz passava só dez minutos em cena, aqui ela faz a personagem principal. O roteiro parece percorrer o caminho inverso do filme anterior, que logo no início saltava 20 anos da noite franquista para a Espanha democrática.

Em Mães Paralelas, ao contrário, o mergulho no passado autoritário só se realiza integralmente no final, quando Janis recupera a história de seu bisavô, assassinado pelos falangistas de Franco, em 1936, durante a Guerra Civil.

A memória da guerra anuncia-se como tema já no início do filme, quando Janis conhece o homem que será o pai de sua filha, Arturo (Israel Elejalde), um arqueólogo forense que se compromete a escavar a cova onde o bisavó dela foi enterrado, nos arredores de sua aldeia, junto com outras vítimas do franquismo.

Mas em seguida o tema histórico cede lugar aos eventos íntimos: Janis desenvolve uma ligação profunda com a jovem Ana (Milena Smit), com quem divide o quarto na maternidade. As duas darão à luz no mesmo dia.

Mal saída da adolescência, Ana também é mãe solteira, e contará com pouco apoio familiar para cuidar de seu bebê. Seu pai mora em Granada, e sua mãe, Teresa (Aitana Sánchez-Gijón), passa longas temporadas longe de casa depois que encontrou uma tardia carreira no teatro (significativamente, ela trabalha em uma peça de Federico García Lorca, poeta que em 1936 foi assassinado pelos franquistas, e cujo corpo nunca foi recuperado).

Tempos depois, Janis reencontra Ana como garçonete em um café. A jovem então entra de vez na vida da fotógrafa, como babá de sua filha. Desenrola-se a partir daí um enredo típico do melodrama, gênero que Almodóvar domina com maestria.

Desta vez, porém, o cineasta revela-se mais contido que de costume. Quando se defronta com o fato mais terrível na vida de uma mãe, a personagem de Penélope Cruz sofre, mas não se descabela; ao tomar a mais dura das resoluções, ela chora, mas não derrete.

E então voltamos aos porões da história espanhola: depois de algumas protelações na busca de financiamento para a escavação, Arturo afinal começa seus trabalhos na vala comum onde o bisavô de Ana está enterrado.

Antes das escavações, ele conduz delicadas entrevistas com as anciãs da aldeia, para saber mais sobre os mortos e inquirir sobre objetos e roupas que poderiam identificá-los. A cena em que o povo da aldeia vai ver os esqueletos de seus familiares vem carregada de uma beleza sóbria e triste.

Mães Paralelas não é tão arrebatador quanto o longa anterior de Almodóvar, Dor e Glória (no qual, aliás, Penélope Cruz também faz uma mãe sofredora).

Mas a mão do grande diretor se revela no fio quase imperceptível com que Almodóvar ata o drama familiar de seus personagens ao trauma do fascismo. Janis aprende que, tanto no amor como na história, grandes segredos não devem permanecer enterrados.



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