Cego aos 15, ele expandiu seus horizontes – e está mudando a política

Cego aos 15, ele expandiu seus horizontes – e está mudando a política


O capixaba Felipe Rigoni tinha 6 anos quando recebeu o diagnóstico de que tinha uma doença degenerativa nos olhos. Passou por 17 cirurgias. Aos 15 anos perdeu definitivamente a visão e, aos 27, foi o primeiro cego a ser eleito deputado federal.

Hoje pré-candidato ao governo do Espírito Santo, Rigoni conta sua trajetória pessoal e política em “Sempre uma Escolha: Minha jornada contra o medo, o preconceito e a má política” (História Real, 272 páginas). Marcos Lisboa, diretor-presidente do Insper, assina o prefácio.

Rigoni formou-se em engenharia de produção na Universidade Federal de Ouro Preto. Chegou a ser presidente do conselho da Confederação Brasileira de Empresas Juniores e trabalhava como coach quando decidiu entrar na vida política. Disputou a eleição para vereador em sua cidade natal, Linhares, no Espírito Santo, pelo PSDB. Perdeu.

Com apoio da Fundação Lemann e da Fundação Estudar, fez mestrado em políticas públicas na Universidade de Oxford. Participou dos movimentos de formação política Acredito e Renova BR. Em 2108, quando se elegeu deputado pelo PSB, foi o segundo mais votado do estado.

Em Brasília, é do time dos parlamentares que defende a lucidez e rejeita os radicalismos. Tem votado a favor de reformas e boas políticas públicas. Votou a favor da reforma previdenciária e do marco legal do saneamento. Trocou o PSB pelo União Brasil justamente porque seu antigo partido se mostrou velho: os socialistas eram contra mexer nas regras da aposentadoria. Rigoni foca na defesa da igualdade de oportunidades e no incentivo ao empreendedorismo.

No trecho do livro que o Brazil Journal publica abaixo, Rigoni fala de sua vibração com a vitória nas urnas e também de suas ansiedades e inseguranças diante dos desafios pessoais e institucionais que teria de enfrentar em Brasília. “Meus eleitores me julgarão nas urnas em eleições futuras”, afirma ele. “Isso é o mais lindo da democracia.”

***

O dia da eleição

O medo, aquele mesmo que me acompanhava desde os 15 anos, quando fiquei definitivamente cego. Se eu me elegesse, como seria a rotina de um deputado cego, o primeiro, o único até ali?

Eu tinha feito tudo o que podia. A bola não estava mais comigo. Sentia uma mistura de angústia, impotência e expectativa.

De volta do local de votação, decidi que passaria o dia quieto, em família, tentando manter a ansiedade sob algum controle. Combinamos que às quatro da tarde toda a equipe de campanha, inclusive o pessoal de Vitória, se reuniria em uma casa que pertence à minha família e estava desocupada. Compramos chope – ainda não sabíamos se para comemorar ou chorar as mágoas – e esperamos dar cinco horas para acompanhar a contagem dos votos.

Mais e mais gente foi chegando – no fim, havia umas cem pessoas no local. Iniciada a apuração, logo de cara apareceram cento e poucos votos. Eu disse a mim mesmo: “Calma, está só começando.” Mil votos. Saí da casa e fui para o quintal. Sentado no chão, sozinho, fiquei ouvindo a gritaria que vinha lá de dentro. Dez mil votos. Vinte mil votos. Chegou gente do partido pelo qual eu havia me candidatado, o PSB, dizendo que eu talvez tivesse uma boa votação, quem sabe até ficasse em segundo lugar, atrás de Paulo Foletto – deputado federal do PSB que concorria à reeleição. Quando bati 28 mil votos, Ingrid Lunardi, amiga de longa data e competência indiscutível que tinha coordenado minha campanha, deu um grito:

– Passamos o Foletto!

Não era uma competição, claro, mesmo porque Foletto até ali tinha sido um bom deputado. O importante era que eu tinha passado o Foletto – eu, um candidato jovem e desconhecido, sem nenhuma vitória eleitoral anterior.

Quarenta mil votos. Ingrid desmontando de nervosa, meu pai imóvel, catatônico de tensão. Dentro da casa, diante do computador, outro amigo fiel e apoiador de primeira hora, Victor Casagrande, acompanhava os números em tempo real e fazia contas.

Cinquenta mil votos. Eu me levantei e comecei a rodar, rindo. Pouco a pouco, eu ia ultrapassando a votação de vários medalhões da política local.

– Ainda não está eleito, Rigoni. Não dá para comemorar por enquanto.

Victor tinha saído de seu posto para me pedir calma.

Setenta mil votos. Eu, naturalmente, não via a expressão de Ingrid nem a de Victor, mas podia sentir que ele estava emocionado quando se aproximou de mim.

– Estamos eleitos – falou assim mesmo, na primeira pessoa do plural, consciente de quanto aquela vitória era de todos nós.

Quando ele disse isso, ouvi um baque: Ingrid tinha desmaiado de puro cansaço, tensão acumulada e, naquele momento, felicidade.

Não dá para descrever o que foi aquele instante. Lembro-me de um grande abraço coletivo, de choro e risos, de alguém perguntando: “O que vocês vão fazer agora?” De alguma maneira, aquela pergunta me despertou. Perguntei por meu pai. O que eu mais queria era abraçá-lo. Aquela campanha fora nossa. Trocamos o abraço mais longo, mais cúmplice, mais afetivo de toda a nossa história.

Queriam que eu improvisasse um discurso, o que eu só faria depois que o último voto tivesse sido contado. Quando chegamos a 84.405 e soubemos que não entraria mais nenhum, disse algumas palavras das quais não tenho a menor lembrança, de tão eufórico e emocionado. Certamente agradeci e reiterei meu desejo de ser um bom deputado. O melhor que pudesse ser.

Àquela altura era impossível prever, mas no Congresso eu teria de lidar com as consequências de uma pandemia que, enquanto escrevo este livro, já havia tirado a vida de mais de 600 mil brasileiros e destroçado a economia. Enfrentaria um presidente mentiroso que, em vez de trabalhar pelo país, se ocupava em proteger os filhos investigados por corrupção e diariamente fabricava tensões e brandia ameaças às nossas instituições democráticas.

Em nome das causas que defendia, eu negociaria com políticos que representavam o suprassumo do fisiologismo. Combateria orçamentos secretos, votações cujo resultado poderia comprometer o bem-estar das próximas gerações e levantaria bandeiras nem sempre compreendidas, mas, como explicarei nas próximas páginas, vitais para o nosso êxito como nação – como a reforma da Previdência e o Marco do Saneamento Básico.

Em pouco mais de três anos de mandato, tive um curso completo das mazelas da vida política brasileira lutando para não perder de vista um único dos meus ideais, e espero ter conseguido. Meus eleitores me julgarão nas urnas em eleições futuras. Isso é o mais lindo da democracia.





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