Bethânia volta com Fevereiros, psicanálise e oração ao mesmo tempo

Bethânia volta com Fevereiros, psicanálise e oração ao mesmo tempo


Maria Bethânia volta aos palcos nos dias 16 e 25 de junho no Rio de Janeiro para outra etapa de apresentações do show Fevereiros.

O ponto de partida é o filme de mesmo nome, que ganhou uma edição em DVD no ano passado e motivou a cantora a fazer shows para ajudar na divulgação.

A pandemia adiou os planos de Bethânia e do resto do mundo, e ela só retomou o espetáculo este ano por conta do baixo índice de contaminações pela covid.

O fato de não ser conceitualmente um show novo, visto que se trata de uma compilação dos muitos pontos altos de sua carreira, fez com que a cantora optasse por não dar entrevistas: ela crê que só vale a pena falar quando tiver algo inédito para mostrar. Mas como diz aquela canção do Roupa Nova, “dizer o quê, se ela tem a música?”

É através dela que Bethânia reforça suas crenças artísticas, políticas, religiosas e sociais.

Primeiro, um pouco de história. Fevereiros é um documentário de 2019, de Marcio Debellian, que foca em dois tipos especiais de culto que acontecem neste mês. O primeiro, em Santo Amaro da Purificação, cidade natal de Bethânia, onde os rituais afro-brasileiros se unem às cerimônias de origem católica. O filme mostra seu envolvimento religioso, entrecortado por imagens de figuras míticas e históricas como Mãe Menininha do Gantois e Jorge Amado.

Da Bahia somos transportados para o Sambódromo carioca, mais especificamente ao desfile da Mangueira, que elegeu a cantora como tema de seu samba de enredo de 2016. Há uma boa dose de religiosidade na festa de origem profana. A devoção se faz presente nos preparativos para o desfile, no modo eclesiástico com o qual os integrantes da escola se aprontam para a avenida. O culto deu certo: A Menina dos Olhos de Oyá, que a Mangueira apresentou na Marquês de Sapucaí, venceu o carnaval daquele ano. Já o filme percorreu um circuito de cinemas de arte e hoje faz parte do catálogo da Globoplay.

É simbólico que Fevereiros, o show que ela apresentou no Espaço das Américas (em São Paulo) em 18 de abril, tenha se iniciado com Um Índio, composição de Caetano Veloso. Poucas horas antes da performance, uma ação da Polícia Federal apreendeu uma balsa de garimpeiros que haviam invadido o território da tribo Xipaya, do Pará (sem falar que o Dia do Índio seria comemorado na manhã seguinte). E a letra que fala do nativo “que descerá de uma estrela brilhante, impávido que nem Muhammad Ali, apaixonadamente como Peri e tranquilo e infalível como Bruce Lee” ganha um outro significado.

Embora não fale abertamente sobre política, Bethânia se manifesta através do repertório de Fevereiros. Pantanal, canção de Marcus Vianna que serviu como abertura da novela de 1990 da Rede Manchete e também é utilizada no remake da Globo, pode ser muito bem encarada como um pedido de auxílio aquele bioma – recentemente devastado por incêndios.

Galos, Noites e Quintais, de Belchior, compositor que pela primeira vez entra na mira de Bethânia, reforça o tom crítico – e a esperança – em versos como “mas veio o tempo negro e a força fez comigo/ O mal que a força sempre faz/ Não sou feliz, mas não sou mudo/ Hoje eu canto muito mais”. Quase uma terapia para um público estimado em 10 mil pessoas.

A crença por tempos melhores se faz presente desde a inclusão de canções como Tá Escrito, de Xande de Pilares, Carlinhos Madureira e Gilson Bernini, à declamação do poema Saudação à Primavera, de Cecília Meirelles. A plateia entende o recado, hostilizando um certo político brasileiro e entoando, com entusiasmo, o nome de um ex-presidente.

Maria Bethânia é uma mulher de fé, seja pelo que demonstra nas letras de cunho devocional ou na crença na deusa música. O primeiro louvor se faz presente em Yayá Massemba, composição de matiz africana de Roberto Mendes e José Carlos Capinam, e Reconvexo, de Caetano Veloso, onde a Mãe África fala mais alto. Reverencia o passado nas interpretações de Negue, de Adelino Moreira e Elzo Almeida Passos e Lama, de Aylce Chaves e Paulo Marques, entre tantos outras canções simbólicas, com a mesma disposição que abraça Joyce Moreno (Mulheres do Brasil), Arnaldo Antunes (Alegria) e os novatos Tim Bernardes (Prudência) e Paulo Dáfilin (De Onde Eu Vim). São 36 canções onde ela traça sua trajetória particular na música brasileira.

Um repertório tão bem estudado merece a companhia de bons músicos, e Fevereiros não decepciona. Comandados por Jorge Helder, baixista e diretor musical, Zé Manuel (piano), Paulo Dáfilin (viola), João Camarero (violão), Marcelo Costa (bateria) e Lan Lan (percussão), ele ressalta um repertório vai do samba canção e da bossa nova ao frevo e à música africana. Que todos os meses sejam Fevereiros.

MARIA BETHÂNIA – FEVEREIROS
Vivo Rio
18 de junho – sábado às 21h
25 de junho – sábado às 21h
Vivo Rio – Avenida Infante Dom Henrique, 85, Rio de Janeiro
Ingressos entre R$ 90,00 e R$ 480,00
Os ingressos são vendidos online pelo site/app da Sympla e pela bilheteria do Vivo Rio, que funciona em dias de espetáculos das 16h até o início do evento.
https://vivorio.com.br/



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