Americanas: o tradeoff do trio

Americanas: o tradeoff do trio



Credores da Americanas querem que Carlos Alberto Sicupira, Marcel Telles e Jorge Paulo Lemann injetem pelo menos R$ 10 bilhões na companhia como parte de um plano para resgatar a empresa – mas a decisão da Americanas de tentar ganhar tempo na Justiça pegou os bancos de surpresa e aumentou o clima de desconfiança.

Numa reunião na sexta-feira, o enviado dos acionistas de referência, Sergio Rial, se reuniu com um quem é quem do sistema financeiro: Milton Maluhy, o CEO do Itaú; Marcelo Noronha e Eurico Fabri, os vps de atacado e de varejo do Bradesco; um executivo do Safra; Carlito Dayan, do Daycoval; Fausto Andrade, em seu último dia na presidência do Banco do Brasil; Roberto Sallouti e André Fernandes, o CEO e o chief risk officer do BTG Pactual; e Mario Leão, o CEO do Santander Brasil.

Rial sinalizou que os acionistas de referência estariam dispostos a colocar R$ 6 bilhões na companhia, mas não fez promessas.  Os bancos responderam que não dava para começar a conversa com um número abaixo de R$ 10 bi.

Àquela altura, no entanto, a Americanas já tinha ido à Justiça se proteger dos credores – mas preferiu omitir essa informação na reunião com os bancos. A maioria soube pela imprensa.

Os bancos disseram a Rial que era hora de dar o nome certo ao que aconteceu – “fraude” –, cobraram a presença dos acionistas, e notaram que, apesar de Lemann, Telles e Sicupira recentemente terem se tornado apenas “acionistas de referência,” eles eram os controladores da empresa durante a maior parte do período em que a fraude aconteceu.

O consenso na Faria Lima é que o trio é no mínimo co-responsável pelo desastre.

Executivos de bancos de investimento que já trabalharam para a Americanas e B2W em diversas transações dizem que os executivos do grupo não tomavam decisão nenhuma sem consultar os controladores, particularmente Sicupira, que sempre esteve mais presente no negócio.

Os credores apontam que Roberto Thompson – o sócio e conselheiro do trio – e Paulo Alberto Lemann, um dos filhos de Jorge Paulo, não apenas fazem parte do board como também participam do comitê financeiro.

O histórico de tormentas contábeis em empresas ligadas ao trio também está sendo analisado sob uma nova luz.

Imediatamente após assumir a América Latina Logística (ALL) – a precursora da Rumo – em 2015, a Cosan decidiu republicar os balanços de 2013 e 2014 da ALL, reclassificando itens como dívidas com fornecedores, caixa, ativo fixo, tributos e outras contas a pagar.  A forma como a ALL reportava os resultados inflava o EBITDA da companhia.

Poucos anos depois, em 2021, a Kraft Heinz – em que os brasileiros são sócios de Warren Buffett – pagou US$ 62 milhões à SEC como parte de um acordo para encerrar uma investigação sobre suas práticas contábeis duvidosas.

Dois anos antes, a SEC havia acusado a Kraft de “se envolver em vários tipos de má conduta contábil, incluindo o reconhecimento de descontos não recebidos de fornecedores e a manutenção de contratos falsos e enganosos com fornecedores, que reduziram indevidamente o custo das mercadorias vendidas da empresa, atingindo supostas ‘economia de custos’. A Kraft, por sua vez, divulgou essas supostas economias ao mercado.”

Assim como no caso da ALL, as impropriedades contábeis permitiram à Kraft reportar um EBITDA ajustado inflado. Em junho de 2019, após o início da investigação da SEC, a Kraft republicou os números, deletando US$ 208 milhões em economias de custos reconhecidas indevidamente em quase 300 transações.

“Depois da ALL, depois da Heinz… de novo??? ‘Vocês, de novo?’” diz o CEO de um banco credor da Americanas.

Mas o melhor termômetro do clima entre os bancos e o trio talvez seja a petição do BTG Pactual para reaver R$ 1,2 bilhão que a Americanas tinha depositado no banco.  Os advogados do banco disseram que a Americanas “é o fraudador pedindo às barras da Justiça proteção ‘contra’ a sua própria fraude. … É o fraudador travestindo-se como o menino da antiga anedota forense, que, após matar o pai e a mãe, pede clemência aos jurados por ser órfão.”

A explosão da Americanas – e seu possível resgate – escreverá um capítulo importante na história do capitalismo brasileiro. Além de serem ícones empresariais e sinônimo de sucesso nas últimas décadas, o trio ainda controla ativos muito relevantes – e a forma como lidarem com este episódio será determinante tanto para suas biografias quanto para o valor de todo seu ecossistema de empresas.

“Os caras têm R$ 180 bi e não querem comparecer com R$ 10-15 bi para resolver o problema?” pergunta um outro credor, espumando. “Vão deixar na mão dos minoritários, debenturistas, bondholders e bancos?”

Com um misto de perplexidade, fúria e melancolia, o mercado está tentando digerir os acontecimentos:  primeiro, a descoberta-relâmpago da fraude por parte de um CEO egresso de um banco credor.  “Rial já sabia?” virou o assunto da Faria Lima.  Depois, o choque com a escala que a dívida tomou, com a Americanas reportando uma dívida de R$ 40 bilhões. Finalmente, a percepção de que os acionistas não estão com pressa.

“Anunciaram o problema sem saber quantificá-lo, jogaram a empresa no limbo e parecem não estar com pressa para achar um solução,” disse um gestor do Itaim.

Para um banqueiro envolvido nas conversas, a Americanas ainda pode ter salvação. “A companhia tem R$ 9 bi em caixa, mais R$ 5 bi em recebíveis de cartão de crédito – um ativo líquido – e, com alguma boa vontade, poderia vender o Hortifruti por R$ 2 bi.  Um aumento de capital de R$ 10 bi e os credores convertendo cerca de 20% da dívida resolveria a situação.”

Pode ser.  Mas ainda assim, as revelações sobre a ‘contabilidade agressiva’ mostram que a Americanas nunca teve a rentabilidade que afirmava ter.  Neste sentido, mesmo a injeção de R$ 10 bilhões pode não mudar nada para os acionistas – forçando o trio a decidir se coloca dinheiro bom num negócio ruim. 

Como são conhecidos pela frieza nas decisões de investimento, deixar quebrar talvez fosse a saída mais lógica.  Por outro lado, ela teria as repercussões de um tsunami.

“Esses 30 dias devem servir para eles entenderem o tamanho das consequências e decidirem se vão queimar dinheiro e quanto. Se dependesse da empresa provavelmente já teriam jogado a toalha,” diz um outro banqueiro, próximo do grupo há 30 anos.  “A realidade é que o jogo não é mais a AMER3, mas sim a retaliação contra o sistema 3G e as consequências criminais para os administradores e conselheiros. A empresa já era. Feliz está a turma do Mercado Livre.”




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